"A educação musical como proposta de cultura, arte e educação, interferindo na vida dos sujeitos, para a construção de novos ideais, conhecimento e saber!"
sábado, 11 de dezembro de 2021
02 - LANÇAMENTO DO LIVRO #M´BORORÉ_A_BATALHA de Clayton_Cardoso e José_R...
sábado, 27 de novembro de 2021
sexta-feira, 19 de novembro de 2021
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quinta-feira, 21 de outubro de 2021
segunda-feira, 23 de agosto de 2021
quinta-feira, 22 de julho de 2021
RELIGIÃO E O BOLSONARISMO – A QUESTÃO DOS ARREPENDIDOS. NÃO PODERÃO SER POSSÍVEIS ALIADOS?
Conversei
com um amigo de longa trajetória política, e
gostaria de compartilhar ideias, que talvez contribuam com o debate. São
percepções que ele teve ao participar de uma das nossas manifestações.
Este amigo ponderou inicialmente dando os parabéns ao movimento dizendo
que o caminho é por aí, que a rua tem um poder muito grande, destacando a
importância de sermos um grupo organizado neste formato de movimento livre
manifestante (com) ou sem envolvimento partidário partindo da sociedade civil
organizada, e de um público mais ou menos jovem o que é de fato revolucionário.
Teceu algumas críticas, com relação às intervenções que debatiam, por
exemplo, os religiosos e seu envolvimento com bolsonarismo, observando que nós utilizamos
muito um discurso de repulsão, com uma tendência até do menosprezo a estes
cidadãos (obviamente por que estamos com raiva dessa gente), pois se dizem
“gente de Deus” ao passo que, contraditoriamente, distorcem princípios éticos
ao inclinarem-se ao movimento bolsonarista. Raiva que se agrava ao observar
como, por meio de delírios, essas pessoas se contradizem distorcendo suas
crenças e a dita palavra de Deus, e que, fundamentando-se em inverdades
oriundas de interpretações bíblicas distorcidas, e todo tipo de provérbios, mergulham
em um mar quântico de hipocrisias.
Ponderou ainda, que marcou muito para ele a forma com que muitos
assuntos foram abordados, sendo que em algumas falas pareciam mais querer
demarcar o lugar e a posição de um determinado território ideológico. Por exemplo, a ideia de uma afirmação de que
nós estamos aqui e somos contra a postura dos evangélicos, e repudiamos os
evangélicos e as pessoas religiosas que se dizem de bem e defendem o inominável
em nome de Deus, um “Deus de justiça”, do qual se pode perguntar: que justiça?
Mas ao mesmo tempo, ponderou que no dia do movimento havia conversado
com uma pessoa que era desse grupo de evangélicos, e que estava lá, dizendo que
tinha se arrependido por apoiar o inominável no início de seu governo, mas que
estava ali justamente para colaborar e reparar certos danos de suas atitudes.
Comentava também que talvez pudesse ajudar de alguma forma com que mais pessoas se
arrependessem e se colocassem no caminho de uma luta contra o bolsonarismo
enfadonho e essa política genocida atual.
A prosa me fez pensar realmente que abordar o tema "religião", é algo bem delicado pois a grande maioria das pessoas que se envolvem com religião, são pessoas humildes, trabalhadoras que, por vezes, a única atividade social que têm é participar da igreja, de um grupo de jovens, fazer uma escuta fiel ouvindo o pastor e que, para muitos, talvez a palavra desses formadores de opinião (os pastores, padres, presbíteros) toma grande dimensão em suas vidas. Muito do que são e pensam essas pessoas, provém da influência da palavra dos pastores, padres ou presbíteros pois esse público muitas vezes não consegue formular um pensamento, uma argumentação. Há muita gente assim, infelizmente.
Este público é formado na grande maioria por pessoas fragilizadas psicologicamente por problemas
de todo tipo e, destarte, se direcionam para o caminho da fé nas igrejas para buscar refúgio, guarida, suporte emocional e espiritual. Sabe-se
também que há casos em que muitos buscam fugir do mundo do crime tentando mudar
suas vidas nos caminhos religiosos, como foi o caso, por exemplo, da tal de
Hello Kitty, a mulher traficante que foi morta pela polícia no Rio. Viram aquela notícia?
Daí então uma das ponderações de nossa conversa foi que, dependendo o
modo como falarmos nos eventos (ao abordar o assunto religião) poderemos
afastar possíveis aliados, arrependidos e indecisos que talvez possam estar
dispostos a se mobilizarem para o lado do movimento.
E sabe caros hermanos, refleti à respeito e penso que ele pode estar certo. Por que não tentarmos trazer para perto esta gente que esta ali em cima do muro, fazendo-lhes perceber por meio da retórica e o tom mais brando, talvez pensando uma abordagem conciliadora que busque aproximações com vistas a fortalecer a luta e o grupo?
Despertado pelo diálogo, logo uma fruição artística do passado me trouxe memórias de um trecho musical do Raul Seixas, cuja letra diz:
Então nessas oportunidades penso que como movimento, é importante marcarmos posição sim, sendo contra determinadas posturas, conquanto, podemos pensar em como (nos discursos) pode-se propor que essas pessoas se unam a nós. Talvez partindo da seguinte indagação: “o que, ou quais argumentos podem fazer com que eles se aproximem e não se afastem ainda mais?”
terça-feira, 27 de abril de 2021
sexta-feira, 23 de abril de 2021
NOEL GUARANY: UM PRECURSOR DO VIOLÃO MISSIONEIRO NO RIO GRANDE DO SUL
JAIR GONÇALVES – JG Music Hall Escola de Música e
Lutheria – 23/04/2021.
O
mundo acadêmico é unânime em valorizar a pesquisa, a dedicação e o esmero no
campo da ciência. Em tempos de improváveis análises de mundo, principalmente, pensando
o viés da sociedade e seus rumos políticos, a cegueira só se cura através do
olhar da ciência, da pesquisa, da argumentação fundamentada, ou seja, daquilo
que é feito sobre o manto sagrado da epistemologia científica.
Em
2019, buscando estes aportes procurei (sobre a luz da musicologia e da pesquisa
documental discográfica) compreender obra musical de Noel Guarany e, através
dela, as contribuições pedagógicas trazidas para o campo do Violão Gaúcho, na
tentativa de colocar o compositor como um dos precursores e pioneiros neste
estilo violonístico no Rio Grande do Sul. Para tanto defendi uma monografia na
UFSM, intitulada “CONTEXTOS DO VIOLÃO MISSIONEIRO A PARTIR DE TRANSCRIÇÕES
MUSICAIS DE NOEL GUARANY”. A ideia principal da pesquisa foi escutar a
discografia e transcrever os violões para partitura e tablatura, possibilitando
análises musicais e produção de um material pedagógico acerca dessa guitarra
crioula defendida pelas mãos e intuição do compositor referido.
Partindo
desse objetivo principal, percebi a importância de Noel Guarany não só como um
dos principais colaboradores para o estilo do violão gaúcho, mas como o
principal criador de uma ideologia artística que foi reconhecida posteriormente
com Música Missioneira do Rio Grande do Sul, ou movimento da Música Missioneira
como foi defendida neste território. Embora alguns folcloristas acreditem que o
tema seja controverso, no território deste estado Noel Guarany foi o pioneiro na
defesa da ideia de Musicalidade Missioneira, ou seja, o criador deste movimento
que em seguida se reforça com a chegada de outros defensores. Daí então o
surgimento de outras denominações para o movimento com a formação de um time os
“Troncos Missioneiros”, que se identificam como “Noel Guarany” (o criador),
Cenair Maicá, Jaime Caetano Braun e Pedro Ortaça.
É
salutar que se perceba que os estudos que realizo buscam compreender o Violão
Gaúcho pensando identificar aqueles compositores, violonistas e artistas que de
alguma forma trouxeram contribuições para o instrumento por meio de sua obra
musical. Destarte, ao transcrever parte da discografia de Noel Guarany, percebi
que existem elementos musicais relevantes para desenvolvimento da performance
violonística característica do estilo.
Tais descobertas se devem às
análises musicais que estão na pesquisa, através das quais foi possível
identificar elementos idiomáticos do violão tais como técnica, composição,
influências estilístico-musicais utilizadas nas composições do autor, sendo
possível identificar por meio delas, as contribuições trazidas para a
Musicalidade Missioneira e para o campo da performance e pedagogia musical.
Uma das minhas preocupações
(como violonista e professor) sempre foram com a questão pedagógica em torno do
ensino do instrumento cordófone referido. Sempre procurei defender a ideia de que a
música gaúcha carece de materiais e registros em termos de uma escrita musical
oficial (partituras, tablaturas) para que essa musicalidade possa ter um
alcance universal mais amplo, ou seja, adentrar academias de música, escolas,
instituições sérias de ensino de música no mundo. Entretanto, aqui não se tem
uma cultura da escrita musical, o que é diferente na região sudeste do país,
por exemplo, ao verificar um grande número de editoração de músicas do gênero do
choro por exemplo. Existem inúmeros livros, coletâneas em partitura do referido
estilo, enquanto que a música gaúcha, e, principalmente o violão gaúcho tem
raríssimos exemplos de material pedagógico para ser estudado.
Neste sentido, percebi que
ao escrever a música de violão de Noel Guarany não só cumprimos um papel de
reconhecimento ao artista, como também identificamos as contribuições e
pioneirismo do compositor em questões do instrumento violão. Uma vez que a
música gaúcha carece de escrita oficial, também se buscou colaborar com a
divulgação desta música por meio desses registros oficiais.
CONTEXTUALIZANDO
O VIOLÃO GAÚCHO
É necessário fazer uma organização das ideias
para o tópico em questão. Desde o início esclarecer o leitor de que o contexto
do qual se refere esta pesquisa é o do “Violão Gaúcho”, ou seja, um gênero de
música instrumental de violão executado no estado do Rio Grande do Sul /
Brasil. Elucidar, destarte, que tal gênero possui nomenclaturas conhecidas como
“Violão Campeiro” na região serrana do RS, e ainda o “Violão Pampeano” na
região fronteiriça, cujo estilo, possui influências da região da pampa
Argentina, tais como o chamamé, a chacarera e o tango. Além destes estilos,
considerou-se neste estudo a possibilidade de existência de outra nomenclatura,
o “Violão Missioneiro”, oriundo da região missioneira do RS.
O
VIOLÃO DE NOEL GUARANY
Em todos os discos, o violão
é o principal instrumento. É sabido que aprendeu tocar de modo autodidata.
Tocava com a “dedeira”, cantando e se acompanhando em performances musicais
solo ao violão. Viajava pela América Latina para aprender tocar, bem como, para
divulgar sua música e a arte missioneira. Criou uma obra musical partindo da
necessidade de revelar ao público sua identidade cultural, bem como, fazer
resgates de temas históricos da região missioneira do RS. Suas influências musicais
residiam no toque Atahualpa Yupanqui, Jorge Cafrune. Segundo Neidi Fabrício
“ele estudava muito. Tinha épocas que amanhecia estudando. Dizia que para tocar
violão tinha que ter muita dedicação. Seu grande inspirador foi sem dúvida
Osvaldo Souza Cordeiro. E outros como Yupanqui”. Noel contribui com a
aclimatação aqui no estado de ritmos como a Chamarrita, milonga entre outros. A
maior expressividade criativa está nas introduções de violão que compunha, onde
explorava inúmeras técnicas oriundas do campo performático do violão.
As principais
características dessa “guitarreada” no estilo “Missioneiro” de Noel Guarany
contemplam muitos elementos, tais como: 1º Arpejamento
de acordes; 2º – Técnicas de
dedilhado flamenco, 3º – Utilização
de solos melódicos em 6ª; 4º -
Solos com dedilhação mista (segurando pestana e solando com os dedos 2, 3 e 4);
5º - Utilização de Alzapua (técnica
do polegar no flamenco), 6º - Utilização
de Ostinatos na primeira corda Integrando o arranjo melódico. 7º - Quiálteras
inusitadas; 8° - Supressão de tempos
do compasso (para ódio dos pragmáticos!)
Para melhor compreensão dos
elementos recomendarei a leitura do trabalho completo que se encontra no link (PDF) CONTEXTOS DO VIOLAO MISSIONEIRO A_PARTIR DE
TRANSCRICOES MUSICAIS DE NOEL GUARANY - JAIR_GONCALVES_2019.pdf | Jair
Gonçalves - Academia.edu. Cujo texto já se
encontra disponível para leitura.
Ademais,
encerro este curto texto dizendo que Noel Guarany é o grande divisor de águas
da música no Rio Grande do Sul, pois como se pesquisou, a música introspectiva
só tem um caminho depois dele aqui no RS, pois instigou a escuta de uma música
temática de amplos sentidos. O violão inserido na música popular gaúcha
do RS, com certeza tem em Noel Guarany um dos seus grandes expoentes. É
possível falar que a música hoje intitulada Missioneira deve muito ao trabalho
deste compositor, quando não, a música Nativista pode ser fruto destes
pensamentos por busca de identidade, história e aspectos mais profundos das
questões sociais que dizem respeito ao índio, o peão, os sem vozes da
sociedade.
Muitos são fãs de Noel
Guarany de modo que nem compreendem a profundidade de sua obra. Até defendem
princípios contrários aos que o compositor defendia, ou seja, estão do lado dos
opressores do povo. Deveriam repensar seu gosto, ou melhor, seus princípios...
ou mudam o gosto ou os princípios.
Bom....
Não é qualquer artista que desafia seu público
(mesmo estando em outro plano da existência). Continuam os desafios para a
compreensão de tão rica obra no presente
e nos tempos vindouros. Noel Guarany está vivo! Caminha entre nós, dedilhando
sua guitarra crioula nas pulperias, nos pagos, nas paisagens deste largo campo
da existência. Se manifesta no olhar triste do índio oprimido pela sociedade
vil que o despreza e que, entretanto, usufrui de seus legados históricos
herdados. O Nheçu da guitarra cabocla, o
saudoso Noel Guarany continua nestes peregrinos caminhos da pampa sulina sendo
vertente e fonte para inspiração de tantos. É merecedor de reconhecimento
eterno. Muito obrigado Noel Guarany, por nos ensinar tanto sobre nós mesmos.
Jair Gonçalves / Prof. Mestre em Música pela UFSM
IJUÍ, 23/04/2021





